
Na teoria, não há diferença entre teoria e prática. Na prática há.
Jan L. A. van de Snepscheut
Um indivíduo pode reunir um vasto acervo de conhecimentos. Várias áreas, várias linguagens, várias décadas de leitura, e, ainda assim, vemos uma bagagem inteira tropeçar no primeiro encontro sério com a realidade. Não porque o conhecimento fosse falso, mas porque a realidade tem uma propriedade que nenhuma enciclopédia consegue reproduzir. A realidade responde. Ela tem timing, exceção, contexto, consequência, atritos. A prática não é a teoria aplicada. É a teoria desafiada por algo que pode negá-la.
Como consultores de aconselhamento e execução, nos deparamos diariamente com desafios semelhantes. O conhecimento, sem dúvida, é fundamental para encontrarmos soluções aplicáveis, viáveis e, principalmente eficazes.
Estamos vivendo em tempos de mudanças vertiginosas. E todas as enciclopédias têm sido postas a prova. E a solução parece estar disponível alguns prompts depois. Uma IA, em sua essência, é uma enciclopédia extraordinária. Um motor probabilístico.
Podemos sintetizá-la como um condensado do que foi escrito, dito, categorizado, recombinado com fluência impressionante. É capaz de simular síntese, de parecer razoável, de responder qualquer questão que se peça. Mas ela compartilha exatamente a limitação estrutural do livro: não está exposta ao real.
Não há, para a IA, um momento em que o mundo bate à porta e diz “não”. Exceto quando ela recebe autonomia para agir sobre o mundo físico, como ocorre em alguns veículos autônomos. Ela pode falhar, alucinar ou oferecer uma resposta incorreta, mas não erra no sentido humano da palavra, carregando no corpo, no nome e na reputação o peso do que deu errado.
É aí que se expõem os fatores críticos da decisão. Quem vai confrontar a resposta com a realidade? Nessa etapa, o confronto, o teste, o risco, não desaparece quando o conhecimento fica mais acessível. Ela apenas muda de lugar. Sai da máquina e volta, inteira, para quem decide usar o que ela disse. A boa notícia é que a única forma de saber se um conhecimento ainda vale é submetê-lo ao risco do real.
E você, está disposto a sair da biblioteca, física, ou digital e ir até o mundo verificar se aquilo (ainda) é verdade?
Pois saiba que você, mesmo quando toda teoria, todo conhecimento de todas as enciclopédias do mundo estão disponíveis a segundos de distância, segue sendo fundamental.
