O desgaste da Visão

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Antes de tudo uma ideia. Um insight. Uma única, poderosa e cristalina imagem mental que molda um sonho. Torna-se a bússola, o motor e a própria razão de ser da organização. 

Na literatura clássica de estratégia, a visão organizacional ocupa um papel estruturante na orientação de longo prazo, conferindo direção, coerência e intencionalidade às decisões empresariais. Já tradicionalmente, a visão é concebida como uma norma. Um artefato capaz de alinhar indivíduos e recursos em torno de um futuro desejado.

No entanto, a observação de organizações maduras sugere uma dinâmica mais complexa.

Sabemos o quanto de subjetividade existe quando tratamos desse tema. Afinal, estamos falando de uma força mental, não de um objeto tangível que possa ser tocado, sentido ou experimentado diretamente. Para tornar mais claro o tema proposto, o ideal é recorrer a um caso clássico que ilustra bem o propósito desta narrativa:

Foi em 1962 que Phil Knight detalhou, em sua tese de MBA em Stanford, a sua “imagem mental”. Knight propôs que os tênis japoneses de alta qualidade poderiam fazer com os modelos alemães (que dominavam o mercado com a Adidas e a Puma) o mesmo que as câmeras japonesas haviam feito com as alemãs (como a Leica). Seu objetivo original era claro: importar calçados de performance superior do Japão a um custo menor para servir aos corredores americanos.

Essa visão foi profundamente influenciada por sua experiência pessoal como corredor de meia-distância na Universidade de Oregon. Lá, ele não era apenas um atleta, mas a “cobaia” predileta de seu treinador, Bill Bowerman, que já buscava obsessivamente formas de tornar os tênis mais leves e velozes. Essa mentalidade de busca pela excelência nasceu, ironicamente, de uma vulnerabilidade: anos antes, Knight foi cortado do time de beisebol juvenil, uma decisão que o magoou profundamente e o empurrou para as pistas, transformando uma rejeição na semente de uma das marcas mais icônicas do planeta: a Nike.

A ideia original de Knight era simples, quase óbvia: tênis melhores para corredores. Essa clareza, nascida de uma experiência pessoal e de uma vulnerabilidade, foi o combustível inicial. Mas o que acontece quando essa ideia, antes tão nítida, precisa navegar por décadas de mudanças de mercado, avanços tecnológicos, crises econômicas e transformações culturais? A trajetória de Phil Knight e o DNA da Nike, oferecem de forma ilustrativa a compreensão de que o desgaste da visão ocorre, e que o legado necessita ser adaptado.

Mutatis mutandis: a visão da Nike evoluiu da logística de importação para a democratização do esporte. O foco deixou de ser o objeto “tênis” para se tornar o sujeito “atleta”. A visão não se desgastou, ela se metamorfoseou para sobreviver.

Esse caso nos ensina que a visão organizacional não é um destino final, mas um organismo vivo que exige manutenção constante. 

Tão vivo que transcende o produto. Just Do It, mais do que um tagline de marca, alcança o humano. Ele expressa um ponto de desintegração, colando a ideia original, traduzida inicialmente como um “negócio” lucrativo e tese acadêmica, para a pulsação viva de Phil. 

Talvez sequer ele tenha imaginado que o símbolo da Nike se tornaria um ícone de performance, capaz de traduzir a dor de ser cortado de um time na força necessária para vencer uma maratona. 

Para o líder que observa sua própria organização, a lição é clara: a visão só resiste ao tempo quando deixa de ser um plano de metas para se tornar um espelho da condição humana. O desgaste ocorre quando tentamos segurar a ideia original com as mãos. A perenidade ocorre quando permitimos que ela se transforme em cultura, em movimento e, finalmente, em ação.

É preciso compreender que toda evolução, como a que estamos vivendo agora, marcada por rupturas sem precedentes, exige novas formas de traduzir a própria visão. Preservar o DNA não significa manter a organização em uma redoma de vidro, mas ter a sabedoria de dar novos significados a esse código genético a partir do presente.

Isso exige a humildade de deixar-se influenciar pela realidade do mercado. Uma visão que se recusa a ouvir o mundo ao seu redor torna-se um monólogo estéril. A Nike não apenas comprou e vendeu tênis, ela se deixou moldar pelas transformações culturais das ruas, das pistas e das questões sociais de cada época. 

O segredo da longevidade, portanto, reside nesse equilíbrio delicado: ser inflexível no propósito, mas absolutamente fluido na tradução, permitindo que a realidade externa oxigene a ideia original e a mantenha pulsante.


Fontes:

https://about.nike.com/en/magazine/the-handshake-that-started-it-all

Experiências e vivências práticas em diferentes organizações

Referências diversas da literatura de gestão empresarial

Metodologia proprietária da Otimiza Consultoria