
A capacidade de ler sinais é uma das mais ancestrais e poderosas habilidades humanas. Observar a cor do céu, a formação e o tipo de nuvens, o comportamento dos animais e a direção do vento eram métodos comuns de antecipar chuvas, tempestades ou períodos de seca.
Os navegadores utilizavam a posição do sol durante o dia e das estrelas durante a noite como bússolas. A presença de certas plantas ou o rastro de animais eram fortes indicativos da existência de fontes de água. Trilhas que garantiam a sobrevivência. Essas são apenas algumas das muitas maneiras pelas quais nossos antepassados liam o mundo em que estavam inseridos. Uma verdadeira ciência baseada na observação, intuição e experiência.
Na atualidade, essa mesma habilidade sobrevive em um novo território. O cenário agora é o ambiente de negócios, e todo gestor, quando utiliza os óculos de planejador estratégico, carrega em si esta capacidade ancestral.
Quando a estratégia é orgânica e enraizada na cultura, a margem de erro diminui drasticamente. Com o seu painel de indicadores, desenvolvido por dados e observação, o planejador consegue detectar os sinais prévios. Isso permite indicar caminhos consistentes, transformando a visão em um plano claro, evitando o efeito ‘telefone sem fio’ na execução.
Contudo, é necessário ser honesto. Muitas vezes, a própria cultura é o terreno infértil. Esse solo pode ser a fonte do principal problema. Um ecossistema tóxico que sufoca a inovação. Nesses casos, o desafio do planejador é duplo. Ele não pode simplesmente semear a estratégia. Necessitará, primeiramente, cuidar do solo.
O trabalho começa por identificar e remover as “ervas daninhas”: a burocracia, a resistência, os silos que isolam equipes. Somente depois será possível cultivar um plano que realmente possa florescer.
Seja nutrindo um solo fértil ou recuperando um degradado, a lição da natureza permanece. Construir sem imposição, não um plano de cima para baixo, mas algo cultivado dentro da própria “selva” organizacional.
Uma cultura forte e autêntica extrai sua força de sua própria natureza: seus valores, suas pessoas e sua história. Quando a estratégia está enraizada nessa cultura, ela se torna a linguagem nativa da “tribo”. A estratégia, quando orgânica, floresce e todos na organização passam a ler os sinais juntos.
Esta é a mais alta forma de liderança. Como na sábia citação de Lao Tzu: “Quando o melhor líder cumpre seu trabalho, o povo diz: fizemos nós mesmos.”
Entender o “porquê” por trás da tarefa, mesmo que ele não tenha sido explicitado.
Tomada de decisão que permeia o ambiente, todas alinhadas ao propósito, mesmo (e principalmente) em situações imprevistas, porque o “espírito” do plano foi engajado pela equipe.
Comunicação eficiente, porque parte de uma base de entendimento comum.
Uma cultura saudável e compartilhada funciona como um gerador de contexto. Quando os valores e o propósito são vividos por todos, a equipe consegue reconstruir o significado perdido. Eles carregam o DNA da estratégia dentro de si.
A cultura não é uma parte do negócio. A cultura é o todo. É o sistema operacional que roda em todos os terminais, garantindo que, mesmo em meio ao caos, a visão original permanece intacta. Sem ela, qualquer estratégia, por mais brilhante que possa ser, está destinada a se perder na tradução.
A dor do planejador é, no fundo, a dor do parto. É o desconforto de guiar uma organização para fora do que ela é e em direção ao que ela pode se tornar. É a tensão de cuidar do solo, semear a visão e confiar que a própria equipe fará a colheita. É uma dor que, quando bem compreendida e abraçada, não sinaliza um problema, mas sim o pulso de uma organização viva e em plena transformação.
Pois afinal, como menciona o uruguaio Eduardo Galeano, “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.“
Vamos farejar juntos novos caminhos, para alcançar o melhor destino para todos nós.
Fontes
Lao Tzu (também grafado como Laozi ou Lao-Tsé) é uma das figuras mais importantes da filosofia chinesa, tradicionalmente considerado o fundador do Taoismo. Seu nome não é pessoal, mas um título honorífico que significa “Velho Mestre”. Acredita-se que tenha vivido por volta do século VI a.C., o que o tornaria contemporâneo de outro grande filósofo, Confúcio.
Eduardo Hughes Galeano (1940-2015) foi um dos mais aclamados e influentes escritores e jornalistas da América Latina. Nascido em Montevidéu, Uruguai, sua obra é marcada por uma profunda crítica social, uma defesa apaixonada dos direitos humanos e uma habilidade única de mesclar jornalismo, análise política, ficção e história. Ele se tornou a voz literária dos “esquecidos” e oprimidos do continente.
Wikipédia
Metodologia proprietária da Otimiza Consultoria.
Experiências e vivências práticas em diferentes organizações.
Referências diversas da literatura de gestão empresarial.
