
Taylor confessa:
— Perdemos de vista o processo — diz, olhando ao redor. Interrompe por segundos a reunião olhando pela janela, como se buscasse na paisagem uma resposta. — Quando achei que estávamos aprendendo a controlar o ritmo, a digitalização nos atravessou. Todos os processos foram impactados.
Ford observa. Desta vez, evita pressionar o conselho.
— Nossos problemas hoje são outros — continua Taylor. — Tudo o que sabíamos sobre comportamento humano está migrando para o digital. Uma influência sem precedentes. Não apenas no consumo, mas na forma como as pessoas trabalham, decidem e se engajam.
Ele faz uma nova pausa. É inegável o seu desconforto.
— Todas as medidas foram checadas. Cada segundo, cada movimento calculado. Conhecemos o ritmo e as repetições, a cadência e o esforço. Acreditei que dominar o maquinário e a força de trabalho seriam suficientes.
Ford permanece em silêncio por alguns instantes. Não sorri, não contrapõe. Apenas cruza os braços.
Taylor inclina levemente a cabeça, como que compreende tardiamente um diagnóstico.
— Quase tudo que padronizei não tem mais importância. O fluxo acontece em camadas que não consigo ver. As variáveis se tornaram incalculáveis. A emoção, a intenção, o desejo e a motivação são forças que não se expressam diretamente pelo corpo. Individualmente, cada um pode cumprir sua função, mas o coletivo passou a ser impactado por fenômenos novos.
Continua perplexo.
— Meus métodos — diz, quase sem acreditar no próprio argumento — foram sepultados. Não por estarem errados, mas porque o objeto mudou. O comportamento não se manifesta mais no movimento. Ele se expressa de forma extremamente sutil, difusa.
Ford finalmente intervém.
— Taylor, está claro para mim que você tentou medir força bruta. Agora, precisamos medir a mente.
Taylor respira fundo, reconhecendo o desafio.
— Mas a mente está oculta. Não é possível cronometrar. A mente reage, resiste, se distraí. E é influenciada por sistemas que jamais considerei. É a informação que domina o comportamento: telas, algoritmos e estímulos contínuos.
Ele continua, agora sem recorrer aos seus relatórios.
— Estamos diante de uma ruptura total. Uma quebra nas crenças que sustentaram o negócio até aqui. Meus métodos estão obsoletos, é preciso admitir.
E então, entusiasmado, como quem acaba de reorganizar o próprio pensamento, continua:
— As equipes não recorrem mais aos gerentes como antes. Sistemas de baixa codificação reduziram drasticamente a dependência da TI e da manutenção contínua. As operações passaram a ser acionadas pela própria fluidez do processo. Podemos agora eliminar todas as planilhas impressas, e os grupos informais de WhatsApp poderão ser eliminados, finalmente.
Os dados do ERP são alimentados em tempo real: entrada de materiais, pedidos dos clientes, prazos comerciais, observações operacionais detalhadas, programação de turnos. Tudo opera simultaneamente, como uma rede inteligente, digital e interconectada.
O propósito está muito mais visível, mais latente. E isso impacta diretamente no desempenho das pessoas.
Surpreso, Ford exclama.
— Então tivemos ganhos?
Taylor, afirma.
— Sem dúvida, mas preciso reaprender tudo que defendi até aqui. Eu não estava errado, ao menos em minha intenção.
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A digitalização altera profundamente a autoridade do conhecimento gerencial ao democratizar o acesso a análises preditivas e decisões baseadas em grandes volumes de dados. O que antes dependia quase exclusivamente da experiência subjetiva do gestor passa a ser sustentado por sistemas capazes de processar informação em escala e em tempo real.
As tecnologias digitais estão promovendo uma democratização inédita do conhecimento. Ferramentas que automatizam a busca, a análise e a circulação de informações permitem que qualquer colaborador acesse insights estratégicos instantaneamente. Com isso, a autoridade tradicional do gerente, fundamentada no controle e democratização da informação, perde força, assim como a dependência hierárquica que dela decorria.
Nesse novo contexto, a eficiência dos times deixa de estar associada ao controle direto das pessoas. Algoritmos identificam padrões, antecipam riscos e sugerem soluções, deslocando o papel do gestor como um facilitador de processos, na criação de contexto e no alinhamento entre decisões individuais e objetivos coletivos.
A eficiência continua sendo construída a partir do desempenho individual, isso não mudou. O que se transformou foi o próprio indivíduo: mais autônomo, mais informado e mais capaz de influenciar o todo. Ao mesmo tempo, esse indivíduo é continuamente influenciado pelo sistema do qual faz parte, em uma dinâmica de interdependência permanente.
O resultado é um modelo de organização em que a performance emerge menos da obediência e mais da coerência entre autonomia, dados e propósito.
Diante desse cenário, torna-se imprescindível embarcar tecnologia de ponta nos processos. Não como discurso de modernização, mas como infraestrutura cognitiva do trabalho. Em um ambiente no qual decisões se multiplicam, variáveis se entrelaçam, e o comportamento se manifesta de forma cada vez mais autônoma, operar sem sistemas avançados significa ampliar o ruído. E precisamos de eficiência.
A tecnologia, aqui, sustenta o julgamento e a performance humana. Ao organizar fluxos, integrar dados, reduzir fricções e tornar visíveis padrões antes ocultos, ferramentas digitais avançadas permitem que a autonomia individual não se converta em fragmentação. Sem esse suporte, a descentralização do conhecimento tende ao caos; com ele, pode se transformar em coerência operacional.
Embarcar tecnologia deixou de ser uma escolha estratégica para se tornar uma condição mínima de funcionamento. Não se trata de acelerar pessoas, mas de estruturar sistemas capazes de suportar a complexidade que elas já carregam.
Administração é ciência. E ciência não se faz no improviso. Não se constrói método saindo de uma reunião para, em seguida, ver um diretor deitar-se sob uma máquina para consertá-la, ou chamar um gerente apenas para falar, e muito. E decidir pouco.
Gestão exige observação estruturada, análise de dados, desenho de processos e decisões replicáveis. Quando a liderança se confunde com presença teatral ou com microintervenções operacionais constantes, o que se perde não é apenas eficiência, perde-se inteligência organizacional.
Administrar não é apagar incêndios nem ocupar o centro da cena. É criar sistemas que funcionem sem a necessidade de espetáculo.
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A Administração Científica, também conhecida como taylorismo, foi uma das primeiras tentativas sistemáticas de tratar a gestão como ciência. Desenvolvida por Frederick Winslow Taylor no final do século XIX e início do século XX, sua proposta central era aplicar métodos científicos à organização do trabalho, substituindo o improviso por análise, observação e padronização.
O foco estava no chão de fábrica. Taylor partia da decomposição das tarefas em movimentos elementares, medindo tempos, esforços e sequências com o objetivo de identificar a forma mais eficiente de executar cada atividade. A lógica era clara: eliminar desperdícios, reduzir variabilidade e maximizar a produtividade por meio da repetição controlada.
Para o contexto industrial da época, o impacto foi profundo. A Administração Científica permitiu ganhos expressivos de eficiência e previsibilidade, criando as bases para a produção em massa e para a consolidação das grandes indústrias. Pela primeira vez, o trabalho deixava de depender exclusivamente da experiência empírica e passava a ser organizado a partir de métodos replicáveis.
No entanto, essa abordagem carregava limites estruturais. Ao concentrar-se quase exclusivamente na produção manual, o taylorismo ignorava dimensões mais amplas da organização, como aspectos financeiros integrados, dinâmicas sociais, motivação, aprendizado e autonomia. O trabalhador era tratado como extensão do sistema produtivo, um componente a ser ajustado, não um agente que pensa, decide e influencia o todo.
Esse modelo, embora eficiente, tendia a engessar o indivíduo. A autonomia era sacrificada em nome da padronização, e o conhecimento permanecia centralizado na engenharia e na gerência. O trabalhador apenas executava.
Com o tempo, essas limitações tornaram-se evidentes. À medida que o trabalho deixou de ser predominantemente físico e repetitivo, e passou a incorporar dimensões cognitivas, relacionais e decisórias, os pressupostos do taylorismo já não eram suficientes para explicar, nem organizar a realidade.
Os princípios da Administração Científica não desapareceram. Eles evoluíram. Foram reinterpretados, combinados com novas teorias e adaptados a contextos mais complexos. O que antes era controle de movimentos transformou-se em desenho de processos. O que era padronização rígida passou a ser orientado por sistemas. E o foco exclusivo na eficiência operacional cedeu espaço a uma visão mais ampla, que reconhece o papel central do indivíduo dentro de sistemas interdependentes.
É nesse ponto que a gestão contemporânea se distancia definitivamente do taylorismo clássico, não ao abandonar a ciência, mas ao ampliá-la.
Se vivessem hoje, Henry e Taylor ficariam deslumbrados ao descobrir que o futuro da eficiência não está em controlar pessoas, mas em conectar inteligência humana e algoritmos em sistemas coerentes.
Frederick Winslow Taylor (1856–1915)
Taylor foi um engenheiro mecânico norte-americano, considerado o pai da Administração Científica. Atuou principalmente no final do século XIX e início do século XX, em um contexto de industrialização acelerada e forte ineficiência operacional.
Taylor via a gestão como uma ciência exata, baseada em observação, mensuração e controle. Seu objetivo não era apenas aumentar a produção, mas substituir o improviso por método. Morreu em 1915, antes de ver a plena consolidação da produção em massa.
Henry Ford (1863–1947)
Ford foi um empresário e industrial, fundador da Ford Motor Company, e o grande responsável por levar a produção em massa a um novo patamar. Seu nome está associado à linha de montagem móvel, ao barateamento do automóvel e à padronização em larga escala.
Ford não foi um teórico da gestão no sentido acadêmico, mas um engenheiro social e industrial, capaz de transformar princípios operacionais em sistemas econômicos viáveis.
Embora contemporâneos, Taylor e Ford nunca trabalharam juntos diretamente. No entanto, Ford conhecia e foi influenciado pelos princípios da Administração Científica. A Ford Motor Company aplicou várias ideias tayloristas. Ford, porém, divergia de Taylor em aspectos importantes, sobretudo no excesso de controle e na rigidez do método.
Fontes:
- Este ensaio se ancora na tradição da Administração Científica de Taylor, atravessa o fordismo e a lógica da produção em massa, e se projeta sobre debates contemporâneos acerca da transformação do conhecimento, da decisão e da autoridade gerencial em ambientes organizacionais digitalizados, dialogando com diferentes correntes teóricas clássicas e contemporâneas, visando provocar reflexão.
- Experiências e vivências práticas em diferentes organizações.
- Referências diversas da literatura de gestão empresarial.
